para exposição de Tiago Carneiro da Cunha
Ele pode vir de um filme B de terror: Johnny encontra algo viscoso num terreno baldio. Ele menciona isso a alguém, que aparece morto na cena seguinte. Daí a Brenda, Hotty, Morna – ou seja lá quem for – tem medo e diz: “vamos cair fora daqui!”. Mas os telefones estão cortados, e os carros vazaram gasolina a noite toda. Então ouvimos notas doídas arrancadas de uma harpa, acompanhadas de versos recitados num tom lamuriento.
Mas este poeta, se veio dali, estava de passagem, e este cenário não o define. Tanto quanto da TV de uma tarde em pausa, vemos nele os resquícios das prateleiras de uma loja de lembrancinhas baratas, uma antiga pintura envernizada e uma edição de poesia para vestibular. Atrás de si um rastro viscoso cobre várias referências, sem que ele tenha habitado nenhuma com mais profundidade.
Contudo, a impossibilidade de rastrear sua origem não chega a tirar-lhe a razão e ele fala com propriedade de sua condição. O que sai dele é feito de sua relação de pertencimento a essa matéria: ele canta para o alto, enquanto se nutre do chão lamacento. E é de um realismo que seria resignado demais para um típico romântico.
Também o outro, que se coça, recostado sobre as dedadas de um declive, dá mostras dos caminhos que vem percorrendo: uma aula de filosofia dada de improviso, uma piada de galeria e uma foto da namorada errada. Vem seguido pela criança que pede, coberta de camadas de um cartum de jornal, mas resfolegando material escultórico, e que parece chegar de algum comentário gritado virando a esquina, ali pelos anos quarenta. Um cruzamento bizarro de ícone, objeto e estereótipo. A princípio, ele me dá pena. Logo já não posso conter o riso, então me culpo. E ele ganha. Chega a generalidade autoritária, cujo poder repousa na mera exibição de si mesma. Depois a alegoria da impotência, reverenciando ironicamente um de nossos momentos culturais mais ambíguos… E o cortejo continua.
As peças, não sei se todas, fazem pose de quem quer seduzir. Sabemos como pode ser charmosa uma peça que, meio cambaleando, maquiagem pesada, falso sorriso, quer ser uma puta escultura… Talvez alguém pague o que ela pede só porque imagina recompensar o esforço que empreendeu para se vender. Ou só pague se entender, olhando no olho da pecinha, que ela conhece bem sua própria condição. Paga porque é o único jeito de provar cumplicidade com a pobre. Por isso nem chega a ser ironia. Ironia pressupõe cumplicidade de saída.
Numa primeira associação, quase automática, me vieram as esculturas de Daumier, carregadas de um realismo que se nutre justamente do exagero, do peso. Quanto mais distantes da verossimilhança, mais reveladoras das personalidades torpes, da ideologia dos postos de poder dos atores sociais. Pensei nas caricaturas, que distorcem as feições a fim de aclarar o que é obscuro. Mas apesar do parentesco provável, o modo como estas peças se colocam é diferente: não denunciam tipos sociais fixos. Se pretendem revelar algo, teria de ser a condição transitória e inapegável do real a que estão sujeitas.
A crítica social estruturada a partir de um observador que olha com astúcia os vícios e as vicissitudes do mundo, dá lugar a um sujeito que vê a própria crítica social como uma dentre outras matérias que convivem nas peças. Este só pode olhar para o mundo desde dentro, com a cumplicidade que um certo cinismo, do tipo sincero e até meio ingênuo, pode oferecer.
Este ponto de vista se aproxima do jogo que presenciamos em “Queremos Barrabás”, pintura de Daumier que se refere à escolha dada ao povo por Pilatus. Assistimos `a condenação do réu inocente ali do meio da multidão, que o acusa e o abandona em nome de um espetáculo que, passageiro, possa distrair, apesar de sequestrar possibilidades de real interação com o mundo. A ilusão da escolha nos impele a ordenar a execução, deste ou de qualquer outro processo. Vamos no embalo, somos parte da massa, que Daumier molda pictoricamente como argila.
Desta mesma massa podem ter saído estas peças. Mas carregam em sua forma até mesmo a reprodução do quadro de Daumier presente no livro que uso para forrar minhas considerações. Assaltam traiçoeiramente as próprias referências que as alçariam ao status de Arte. O “Exigente” já contabiliza meu Daumier como mais uma vítima. Além do mais, tem na lábia tanto o argumento “Jesus” como o “Barrabás”. As mãos parecem encenar uma contradição, mas sua boca conforma sem conflito a síntese que é sua exigência.
A referência mais importante à sociedade vigente aqui não se dá pela identificação rápida dos tipos, personagens, grupos (apesar do conjunto apresentado me parecer muito eloquente em relação a nossa mesquinharia histórica), mas por nossa identificação com eles em sua desorientação.
Afinal, estão aí todos estes freaks que nos olham do lugar de privilégio que lhes dá a base escultórica: acima do chão, mas um tanto abaixo dos olhos. E acima disso eles ganham uma concretude que não tinham antes, quando ocupavam o plano transitório das imagens que compõem as mídias, que servem de material aos estereótipos e os nutrem, e que batizam o mundo de realidade enquanto seduzem.
Puxam o fio que liga a estranheza, causada pela gente que vive se esgueirando, ao medo que me davam os bibelôs sacanas que moravam com minha avó, e que esticavam a careta quando os adultos não estavam prestando atenção. Mutantes, viviam razoavelmente satisfeitos na mesinha de centro, até que um dia, não se sabe bem: nada bastava, a visita não ia embora, ou alguém sem querer – não importa – deixou cair um deles, fazendo-o em um monte de cacos. E isso os revoltou irremediavelmente. E depois de atravessarem todas as categorias daquele apartamento de aposentados; estante, televisão, folhinha e jornal, alcançaram-me aqui. Tiram um sarro de minha pretensão de análise, da impossibilidade evidente de cercá-los com uma definição cultural. Só me resta imaginar que caras vão fazer para as visitas ilustres quando, depois de vendidos, ocuparem novamente as salas de estar.
Este para mim é o desejo de verdade destas peças que chegam arrastadas a um espaço museologicamente ajeitado: revelar, à revelia, o que há de mais transitório. Dar forma, a dedadas, àquele clichê que ronda desde sempre o fundo do nosso raciocínio ideológico, fazendo dele um ícone concreto, mantido vivo no limite do fetiche.