gilbertomariotti

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Vigiar como perceber

Em sobre, fevereiro 25, 2010 às 12:36 pm

para as pinturas de Rafael Carneiro

Retiradas de uma mídia que produz fatos, imagens de laboratórios e depósitos são reinseridas no campo da pintura como paisagens do visível, de um real produzido pela observação, distante das câmeras fotográficas. Atentam para a prontidão dos espaços onde se realiza um trabalho especializado, longe das vistas do público. Esterilizados, contêm algo que aparece ali encoberto para que, no tempo certo, possa ser oferecido como “descoberta”.

Antes, quando vistas nos meios de divulgação dessas instituições, essas imagens participavam da funcionalidade que definia todos os procedimentos cotidianos em que se inseriam. E agora, transformadas em pinturas, o que lhes sucede?  O objeto que vemos encoberto corresponderia ao objeto da pintura?

Se contemplamos esses ambientes como paisagens, estas são pitorescas de nosso real vigiado, disponíveis agora nesse outro sistema de procedimentos previsíveis em que se contempla, percebe-se, interpreta-se, e que tem por moral um conjunto de valores estéticos definido. Um circuito limitado, mas ativo e no qual se vê participante inusitado o frequentador do Centro Cultural São Paulo. Isto porque, abdicando do espaço expositivo reservado ao Programa de Exposições, três dessas pinturas ocuparam paredes na biblioteca à vista de grande parte do público que usa o espaço para estudos, leituras e consultas, e assim interagindo de forma peculiar com o cotidiano institucional.

A disposição de enfrentar um espaço de arquivo como este resulta em reflexão sobre o destino das imagens inicialmente produzidas pelas câmeras de vigilância, assim como um desdobramento para a experiência que as telas nos ofereciam inicialmente.

À primeira vista destoam um tanto do despojamento do ambiente. Contudo, num  momento seguinte, vemos como o espaço já inicia um contato interessado com a pintura. A tubulação de um hidrante separa como uma linha vermelha as telas expostas lado a lado. Um papel de embrulho, similar ao que cobre o objeto na imagem, é esquecido no chão próximo a elas. E se faz notar, mesmo que discretamente, a presença de um funcionário da segurança que vaga por ali, como que à procura de um sentido.

Só depois se evidencia uma conexão fundamental: pintura e biblioteca compartilham um mesmo silêncio, replicado mutuamente em seus espaços internos. Se atribuímos ao trabalho das bibliotecárias uma voz que orienta as consultas, já não é tão fácil identificar a origem do ruído distante dos ventiladores de ar, que circula pelo espaço da pintura como se viesse de seu interior.

Nesse silêncio acabrunhado da biblioteca, sempre que nossa atenção falha em seguir as linhas do livro, ou que este nos pede mais do pensamento do que podemos atender, encaramos num movimento involuntário a pintura como a uma intrusa. E de forma reativa, mas num movimento automático, encara-nos de volta a câmera de vigilância.

Sociedade Anônima

Em sobre, fevereiro 25, 2010 às 12:34 pm

para Associados S/A, grupo Hóspede

Mesmo para quem chega sozinho ao espaço expositivo da III Mostra do Programa de Exposições fica difícil perceber individualmente a instalação do grupo Hóspede, Associados S/A. Estar em frente a este trabalho é esbarrar em uma aura de público que se aglomera em torno dele, como acontece a quem assiste a um evento oficial, uma inauguração de obra pública, uma solenidade qualquer. É ocupar um lugar endereçado a qualquer passante, embora uma certa sensação de não pertencimento deva prevalecer.

O cinema de propaganda, o hall de entrada dos espaços institucionais e os painéis expositivos do Centro Cultural São Paulo são submetidos a um cruzamento forçado, resultando em nova forma. Por mais estranha que pareça à primeira vista, a combinação funciona pela exploração de raízes comuns a essas mídias, geralmente distantes. Como uma máquina grandiloquente, o display parece avançar sobre nossa percepção por meio da projeção de uma bandeira que tremula triunfante, da altivez resgatada dos prédios públicos por um par de mastros que carregam bandeiras, do uso exagerado da cor vermelha, que tomou conta de muitos dos seus elementos, mas principalmente por conta dos termos que surgem projetados na tela, a começar por verbos na primeira pessoa do plural, num presente tenso e contínuo.

Mudamos

Privilegiamos

A posição impassível das bandeiras que pendem dos mastros contrasta com seu movimento na tela, apontando como esse símbolo ganha vida apenas no campo discursivo do filme. Esses verbos, carregados de uma ideologia do coletivo, parecem ter nos mantido ocupados por séculos, numa sucessão tão monótona como a que ocorre na projeção. Inevitavelmente nos incluem na ação a que remetem, para nos excluir na mesma medida.

Mudamos

Privilegiamos

Empregaram

Privilegiaram

O trânsito de símbolos ligados ao Estado, típicos de uma apresentação institucional, combinados como estão ao formato utilizado pelas estratégias de abordagem mercadológica, nos remete à cumplicidade entre interesses privados e espaço público. A linguagem se revela o lugar comum apropriado para a conjunção dessas instâncias, hoje intimamente conectadas e funcionando simbioticamente. Na tela, seguem projetados outros termos que confirmam sua associação, anunciada no título.

Mudamos

Privilegiamos

Empregaram

Privilegiaram

Definidos

Comprometidos

O display, visualmente não muito distante de um palco para marionetes, é de certa forma realista em seu exagero. Assumidamente cenográfico, refere-se a uma encenação à qual nos acostumamos como parte inevitável dos processos que dão forma à nossa vida política. Imóveis diante dele, relendo os termos que continuam a se repetir, assistimos atentamente à projeção que nos torna solenes espectadores.

Duas noites

Em sobre, fevereiro 25, 2010 às 12:19 pm

Dispostos lado a lado estão Cordis e Jardim Invisível, filmes de Roberto Bellini. Entre um e outro constroem-se conexões imprevistas. E em cada um, conexões internas entre espaços abertos na narrativa. Algumas cenas funcionam como pontes: são lugares, mas são também passagens. São produto de um olhar que, mesmo quando explora seus objetos de dentro, coloca-se como estrangeiro, por estranhar tudo que ainda guarde elementos de absurdo, e com a vivacidade de quem explora um novo território. Sem repelir, no entanto, o jogo que se apresenta. Sem a imposição de um termo ideal ao roteiro.

Desse diálogo com o lugar vem a compreensão, em Cordis, de que há silêncio quando é noite e ouvimos grilos. De que, apesar dos faróis acesos do carro apontarem para algo, acabam diluindo-se no escuro de tudo. Então alguns fragmentos de um mundo banalizado vão aos poucos revelando as entranhas do que realmente constitui a cidade: seu ritmo, pelas luzes que não duram; seus espaços vazios, na noite que guarda para o dia seguinte algumas surpresas. Seus limites. A visão de natureza que ainda resiste quando chega o dia.

Em Jardim Invisível, o que era natureza não existe mais. O cuidado programado do jardim é realizado de modo discreto, a uma distância segura. É preciso “fazer a América”. Tudo é feito de um outro silêncio, que aceita ruídos como resquícios. A câmera procura em vão quem lhe possa objetar em algo, quem lhe ofereça alguma resistência. Apesar da iluminação dominante, o jardim parece ressaltar o que tem de inacessível. Quanto mais perambulamos exigindo respostas do olho míope de quem examina de perto, mais se revela nossa condição ausente. Naquele subúrbio, a luz já aplainou o que poderia haver de indeterminado nos acontecimentos noturnos.

Em Cordis isto permanece insondável. O próprio lugar parece repelir com mais força o discurso. Ali, matar um boi é uma arte, tanto quanto cuidar de um jardim. No entanto, a tarefa do jardineiro parece não reservar surpresa (nem para ele, nem para nós), ao passo que o artesanato do boi se faz no momento: com os recursos de ontem, decide-se a partir de um procedimento inicial, ainda a se completar pelas possibilidades de hoje. É preciso transportar, é preciso dar cabo, é preciso achar um parceiro, é preciso saber onde fica… Um tanto como o próprio filme é feito: achando valor no imprevisto.

Numa acepção rara de representação, esses filmes propõem um modo estranho de “estar em lugar de”. Cada um é, em si, um lugar, do qual brota o lugar ao qual se refere. Nasce como seu desdobramento. Ambos se fixam entre “cinema” e “artes visuais”, mas sem ratificar o marasmo de uma multidisciplinaridade que reduz toda especificidade a uma mesma matéria plana, eliminando diferenças. Pelo contrário, potencializam a fronteira entre estas categorias até o ponto de transformá-la também e novamente, em lugar. Dispostos lado a lado, Cordis e Jardim Invisível são duas noites que convivem em silêncio.

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