para as pinturas de Rafael Carneiro
Retiradas de uma mídia que produz fatos, imagens de laboratórios e depósitos são reinseridas no campo da pintura como paisagens do visível, de um real produzido pela observação, distante das câmeras fotográficas. Atentam para a prontidão dos espaços onde se realiza um trabalho especializado, longe das vistas do público. Esterilizados, contêm algo que aparece ali encoberto para que, no tempo certo, possa ser oferecido como “descoberta”.
Antes, quando vistas nos meios de divulgação dessas instituições, essas imagens participavam da funcionalidade que definia todos os procedimentos cotidianos em que se inseriam. E agora, transformadas em pinturas, o que lhes sucede? O objeto que vemos encoberto corresponderia ao objeto da pintura?
Se contemplamos esses ambientes como paisagens, estas são pitorescas de nosso real vigiado, disponíveis agora nesse outro sistema de procedimentos previsíveis em que se contempla, percebe-se, interpreta-se, e que tem por moral um conjunto de valores estéticos definido. Um circuito limitado, mas ativo e no qual se vê participante inusitado o frequentador do Centro Cultural São Paulo. Isto porque, abdicando do espaço expositivo reservado ao Programa de Exposições, três dessas pinturas ocuparam paredes na biblioteca à vista de grande parte do público que usa o espaço para estudos, leituras e consultas, e assim interagindo de forma peculiar com o cotidiano institucional.
A disposição de enfrentar um espaço de arquivo como este resulta em reflexão sobre o destino das imagens inicialmente produzidas pelas câmeras de vigilância, assim como um desdobramento para a experiência que as telas nos ofereciam inicialmente.
À primeira vista destoam um tanto do despojamento do ambiente. Contudo, num momento seguinte, vemos como o espaço já inicia um contato interessado com a pintura. A tubulação de um hidrante separa como uma linha vermelha as telas expostas lado a lado. Um papel de embrulho, similar ao que cobre o objeto na imagem, é esquecido no chão próximo a elas. E se faz notar, mesmo que discretamente, a presença de um funcionário da segurança que vaga por ali, como que à procura de um sentido.
Só depois se evidencia uma conexão fundamental: pintura e biblioteca compartilham um mesmo silêncio, replicado mutuamente em seus espaços internos. Se atribuímos ao trabalho das bibliotecárias uma voz que orienta as consultas, já não é tão fácil identificar a origem do ruído distante dos ventiladores de ar, que circula pelo espaço da pintura como se viesse de seu interior.
Nesse silêncio acabrunhado da biblioteca, sempre que nossa atenção falha em seguir as linhas do livro, ou que este nos pede mais do pensamento do que podemos atender, encaramos num movimento involuntário a pintura como a uma intrusa. E de forma reativa, mas num movimento automático, encara-nos de volta a câmera de vigilância.