gilbertomariotti

Dia sim, dia não

In sobre on setembro 4, 2019 at 9:05 pm

Artigo escrito para Dear.magazin, publicado em dossiê sobre a cidade de São Paulo, traduzido para o alemão como “São Paulo: Kulturhauptstadt Adieu?”:

https://www.dear-magazin.de/stories/Sao-Paulo_-Kulturhauptstadt-Adieu_19036921.html

 

Bolsonaro, nosso presidente recém empossado é, dia sim, dia não, chamado de fascista. Não é difícil identificar traços de misoginia, racismo e homofobia em seus posts e tweets, mas quais são as consequências práticas da implantação de um programa cultural socialmente excludente em uma democracia como a nossa? Terão estas declarações do presidente uma conexão prática e visível para quem trabalha na chamada economia criativa? Deixe-me olhar por sobre meu computador e entender as transformações mais recentes deste meio em meu país.

No pequeno estúdio em que trabalho, em São Paulo, onde designers, produtores, editores e arquitetos compartilham espaço e projetos, a notícia de um contrato com o Sesc (Serviço Social do Comércio), é motivo de congratulações. Se isto ocorre com um estúdio de design, para a criação e desenvolvimento da identidade visual de um evento, por exemplo, os profissionais envolvidos podem contar que, em seguindo as normas trabalhistas e estando em dia com impostos, receberão valor adequado por seus serviços e de forma segura, o que nem sempre acontece de maneira geral por aqui. Mas, acima de tudo, saberão que seu projeto deverá atender demandas de interesse social e terão contato com um público amplo e diverso, pelo fato do Sesc prestar um serviço social não elitizado.

O Sesc, juntamente com o Senai e Senac (Serviço Social de Aprendizagem Industrial e do comércio), o chamado “Sistema S”, é mantido pelas empresas, administrado pelas entidades sindicais patronais e destinado aos trabalhadores, por meio de programas de formação profissional e bem-estar social, qualidade de vida e atividades culturais. Em 2018, teve um orçamento de cerca de 17 bilhões de reais (algo como 3,7 bilhões de euros) gastos, entre outras coisas, na proposição e produção de atividades culturais como exposições, eventos, debates, cursos, shows, apresentações de teatro, para as quais são contratados profissionais da cultura de diversas áreas.

Em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo (19 de maio de 2019), Danilo Miranda, presidente do Sesc há décadas, aponta a tentativa escusa do atual governo de abocanhar boa parte dos recursos destinados aos programas, amparada pela ideia equivocada de que as atividades culturais não integram nem dialogam com a formação profissional dos trabalhadores. Para Miranda, “nem durante a ditadura militar [de 1964 a 1985] o pensamento e a cultura estiveram sob ataque como agora”.

Para além do Sesc, o setor cultural como um todo tem sido demonizado desde a campanha eleitoral para a presidência no ano passado. A projeção de uma imagem negativa da cultura, mesmo sem fundamento objetivo quando se analisa dados da política cultural, tem encontrado aderência em boa parte da opinião pública.

Dispositivos de financiamento cultural como a chamada Lei de incentivo federal, antiga Lei Rounet, foram representadas na campanha como um emblema de falta de critério e parcialidade. Por volta dos últimos vinte anos, o modelo de financiamento dos setores culturais do Brasil tem se dado por uma combinação entre incentivo público à cultura via principalmente a Lei Rouanet (parte do dinheiro devido a impostos pode ser direcionado diretamente a projetos culturais) e recursos públicos.

O governo atual ataca este modelo com o argumento de que havia concentração de recursos de forma desigual e ideológica, sendo urgente uma reforma em seus mecanismos. Após as eleições, a reforma realizada no mecanismo legal que ordena a aplicação da lei, no entanto, em nada permite a redistribuição de recursos, nem causa impacto na descentralização, é o que me diz Ana Letícia Fialho,  especialista em políticas culturais que teve seu livro Atlas Econômico da Cultura Brasileira (UFRGS, 2017) indicado ao prêmio Jabuti de economia criativa, e foi Diretora, entre 2016 e 2018, de Estratégia Produtiva da Secretaria de Economia da Cultura do agora extinto Ministério da Cultura: “funciona apenas como efeito ilusório para quem desconhece os mecanismos de financiamento”.

Outro posicionamento apresentado como continuação desta campanha e que se coloca de forma explícita pelo governo Bolsonaro é o combate a conteúdos considerados ideológicos, por meio de um discurso moralizador do foco temático dos projetos culturais, como se tudo o que era produzido nas administrações anteriores atendesse a objetivos de uma “doutrinação comunista”. Esta ideia pretende liberar o governo para uma censura direta de projetos que ofereçam visibilidade a temas que haviam deixado de ser tabu há alguns anos, ao menos quanto a sua possibilidade de financiamento. Um profissional da área cultural ouviu, em uma reunião na Secretaria Especial de Cultura há poucas semanas, que temas como LGBT ou negros não devem figurar como objetos de projetos a partir de agora.

Na prática, isso significa que nós, designers, produtores, editores e arquitetos do estúdio estaremos não apenas sendo contratados para realizar menos projetos, por menos dinheiro, e nos vendo obrigados a aceitar piores condições de trabalho com menos poder de negociação. Significa que, além de tudo isso, somos chamados a abrir mão, se quisermos manter o fluxo de trabalho e renda (ainda que menor), de defender o espaço em eventos para o debate político sem censura, a diversidade de posicionamentos em nossas publicações, diversidade racial e de orientação sexual de nossos agentes e personagens, em função de um discurso único e monolítico que exclui todos os outros, um discurso anti-política, anti-direitos humanos, anti-cultura. Que os projetos que ajudamos a financiar com nossos impostos, e os produtos culturais para os quais estivermos trabalhando não devem transparecer visões que conflitem com o discurso governamental. Por isso, dia sim, dia não, nos perguntamos até quando devemos chamar o sistema em que vivemos de uma verdadeira democracia.

 

 

 

 

 

Como dobrar uma bandeira, como desdobrar.

In Uncategorized on agosto 22, 2019 at 6:20 pm

Para intervenção gráfica “Como dobrar uma bandeira, como desdobrar”, de Marcius Galan, para projeto Platô.vitrine.

 

Em prospecção que só o desenho pode elaborar, o ato cerimonial de dobrar a bandeira nacional é levado até o limite das possibilidades que porta a linha. Por meio da abstração que porta a palavra, é possível imaginar infinitas dobras, ultrapassando os obstáculos de escala e matéria.

Por meio do discurso político, pode-se seguir até o esvaziamento dos conteúdos, a perda de quaisquer referências, rumo à irrepresentabilidade. Pelo mesmo caminho, no sentido oposto, pode-se recuperar a substância, o valor, a matiz.

Por meio do desenho desdobra-se o trabalho realizado anteriormente com linha, pano e pregos por Marcius Galan, “Como dobrar uma bandeira, como desdobrar”, agora repensado para o projeto platô.vitrine.

 

Sobre o projeto:

O platô.vitrine propõe a artistas que desenvolvam projetos de intervenção utilizando com linguagem/técnica a adesivação para vidro e a a vitrine do Platô estúdio como mídia/suporte.

https://plato.studio/6-projetos-e-intervencoes

Lapso de linguagem

In sobre on agosto 19, 2019 at 4:03 pm

Sobre Babel, trabalho de Romain Dumesnil para o projeto Hóspede na Fundação Ema Klabin.

 

Ao estrangeiro que habite o português, nossa realidade movediça, contraditória, embora familiar para nós em sua falta de sentido, resta a coleta de fragmentos deste mundo que o estranha. Peças soltas, se reunidas como numa colagem improvisada podem produzir, em contato com outras, novos sentidos, mas nem por isso deixam de falar de sua origem. Remetem tanto ao deslocamento quanto à identidade.

“O tema da Torre de Babel, na idade moderna […], é uma consequência da expansão europeia pelo mundo. É a expressão de um “olhar mundo”, fruto dos encontros e desencontros de povos, costumes e culturas proveniente de uma primeira leva da globalização […]. A Torre de Babel coloca a capacidade de traduzir como um fio de Ariadne. É o meio para sair do labirinto da incomunicabilidade que caracteriza a “máquina do mundo” em que vivemos”[1].

No horizonte de quem vaga por língua estranha pode despontar este edifício impossível, cuja falha de projeto se avista de tão longe. Distante, é denunciado por sua pretensão, e próximo, se traveste em cidade (tão grande é a extensão de suas fundações), indo de obstáculo sedutor à conquista inalcançável. Ao subir infinitamente por suas escadas tortuosas, atravessar seus cômodos conjugados, o estrangeiro terá habitado por anos nenhum outro lugar senão a própria língua, nenhum outro campo que não o da fronteira.

Ingrata a tarefa da representação: contrapor, mapa mundi em mãos, as bordas dos tais “encontros e desencontros”, numa movimentação conflituosa de territórios, as fronteiras da língua que definem, conceituam, dão fim à realidade: “O eixo que une os dois polos é a linha ao longo da qual a língua se projeta a partir do calar-se autêntico, ou vice-versa, ao longo da qual a língua decai em direção do calar-se autêntico. […] A conversação que somos, e que é toda realidade, surgiu e sempre surge do indizível, o nada”[2].

Resta sempre algo que, por sua ausência, conecta dois polos opostos. Dois mundos que, mesmo ao se ignorarem, possibilitam, um ao outro, sua existência.

 

[1] LAFER, C. Os privilégios da visão In: A coleção Ema Klabin/Paulo de Freitas Costa (org.). São Paulo: Fundação Cultural Ema Klabin, 2017.

[2] FLUSSER, V. Língua e Realidade. São Paulo, Annablume, 2004.

 

Projeto Hóspede

A Fundação Ema Klabin dá continuidade ao Projeto Hóspede, com curadoria de Gilberto Mariotti. Trata-se de um convite para que trabalhos de arte contemporânea sejam hospedados pela Fundação Ema Klabin por um período de um mês e possam conviver proximamente com uma das obras de seu acervo, acompanhados por um texto que propõe uma relação entre o trabalho hospedado e a obra anfitriã. Esta edição conta com um trabalho de Romain Dumesnil, “Lapso”, de 2017, exposto em relação com a obra “Torre de Babel”, de um seguidor não identificado da escola de Bruegel, séc. XVII.